A partir de um olhar atento, acolhedor e seguro, desenvolvemos um trabalho que percebe a criança dentro da relação com a família e com o meio em que ela vive. Cuidadosa e disponível, nossa abordagem se propõe a mediar de forma delicada as trocas entre as necessidades da criança e os cuidados da família. A partir daí, estimula-se a construção de um ambiente propício ao desenvolvimento das potencialidades da criança e ao suporte adequado das suas singularidades. Apostando na força da experiência lúdica, procuramos criar um espaço que valoriza o movimento espontâneo da criança e o desenvolvimento natural dos seus talentos.
Pensando na dificuldade que os pais têm hoje em conciliar a vida profissional e uma educação mais cuidadosa e atenta para seus filhos, psicólogas pesquisadoras da primeira infância se reuniram e montaram um babysitting. Existem acordos esporádicos - que funcionam como na Europa e EUA - e acordos mensais, onde os dias e horários são previamente combinados. O babysitting veio preencher uma lacuna nas famílias que optaram em não ter babá. São pais que muitas vezes conseguem conciliar sua vida profissional com a rotina e educação das crianças, mas que em um ou mais dias da semana, têm dificuldades e não têm com quem deixá-los ou não tem quem os busque na escola, natação ou algo do gênero. Aí que a gente entra em campo e, no caso do plano mensal, se houver demanda da família, podemos ajudar na tirada da fralda e chupeta, na adaptação da escola, dormir sozinho, fazer os deveres de casa, administrar a mesada, colocar limites, ou seja, mediar qualquer dificuldade que a família possa vir a ter com o desenvolvimento e educação dos filhos. Há ainda o babysitting voltado para questões específicas, desenvolvido especialmente para crianças que apresentam alguma dificuldade, seja ela emocional ou motora, mas que não se justifica o atendimento em consultório. Já no caso de crianças que estão recebendo acompanhamento psicológico em consultório, podemos fazer um trabalho em parceria com o psicólogo ou psicopedagogo compondo uma rede de auxílio e suporte à dificuldade singular daquela criança no ambiente domiciliar.
Dada a violência e competitividade do mundo em que vivemos hoje, muitas famílias com o intuito de proporcionar uma boa educação para seus filhos acabam exagerando e pecando pelo excesso de proteção e controle, o que muitas vezes pode acabar oprimindo o espaço de desenvolvimento da criança. O excesso de cuidado pode não disponibilizar espaço para que a criança experimente e reconheça as suas necessidades. As frustações são importantes na medida que possibilitam a criança reconhecer suas próprias necessidades. Essa é a importância da falha no ambiente - que podemos pensar como um sinônino para mãe na obra do conhecido psicanalista Donald Winnicott. A superproteção não permite falhas ambientais e não proporciona espaço para que as crianças possam aprender sobre si através das frustrações. Por parte da família espera-se apenas que ela acolha as frustrações, mas de modo algum impedir que elas ocorram por completo. O ajuste é fino e delicado já que a falha em excesso também pode causar um sentimento de desamparo na criança. Muitas vezes, as medidas preventivas criam regras de que os pais devem ou não fazer em relação aos seus filhos . Ou seja, tanto muito quanto pouco cuidado pode ser prejudicial, e o que define um e e outro é a necessidade singular de cada criança. Daí a dificuldade em educar. Crescer é se conhecer e aprender a se cuidar. Por isso, muitas vezes um olhar externo pode ajudar bastante no reconhecimento dessas necessidades por parte da família. No futuro, esta experiência certamente contribuirá para que a pessoa possa se cuidar e se proteger nas relações que vier a ter. Chamo de necessidade coisas que só uma pessoa pode fazer por si mesma. É como fazer xixi e cocô. Então educar tem a ver com disponibilizar este espaço pro outro advir, pro outro poder ir reconhecendo suas próprias necessidades. E isso se torna difícil, na medida que muitos pais e mães não tiveram esses espaços na infância e então necessidades de pais e filhos acabam se misturando, se confundindo e prejudicando o processo de amadurecimento e profissionalização – quando o adolescente faz sua escolha profissional e vai encarar o mundo. Quando a vida profissional chega ele vai por em prática tudo o que aprendeu em casa com a sua família – sua primeira noção de mundo. Como seres humanos temos tarefas: nascer dentro da família pra poder nascer no mundo. Portanto, quanto melhor a criança puder crescer e ser acolhida nas suas necessidades singulares dentro de casa, mais fácil também se dará a sua entrada na vida adulta, com as responsabilidades e estabelecimento da vida profissional. É como se a infância e a adolescência fossem um grande estágio pra vida adulta.
Hoje a complexidade da vida é tanta que, muitas vezes, vemos as famílias pagando um preço alto para não acompanharem o crescimento dos seus filhos. Muitas mães, hoje, tornam-se administradoras de babás que por sua vez, são quem estabelecem um laço afetivo mais próximo com as crianças. Achamos que é importante as famílias refletirem sobre a educação que querem proporcionar para os seus filhos. Muitas vezes em nome de status e valores previamente estabelecidos, a educação das crianças fica a cargo de um funcionário da casa. As crianças são o futuro da humanidade, a família sua primeira experiência de mundo e, o laço afetivo entre a família e a criança aquilo que media sua relação com o meio social, construindo internamente a experiência de estar no mundo. Hoje o afetivo é o ponto importante. Algo que foi bastante prejudicado com o processo de industrialização durante a revolução industrial e com a soberania da Razão que ditou os modelos de vida até o século XX e ainda o faz hoje. Por um futuro melhor pros nossos próprios filhos, acho que já é hora de começarmos a estranhar esta tendência já há muito tempo naturalizada entre as famílias de classe média e média alta no nosso país. É como se a Razão tivesse suprimido a sutileza, e não há nada mais sutil e delicado que uma criança – o início de uma vida.
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